Eutanásia e a última imagem do seu animal
Quando amar também é tomar decisões difíceis
Talvez esteja a ler este texto depois de ter autorizado uma eutanásia.
Ou depois de ter decidido não a autorizar.
Ou depois de uma perda marcada por urgência, doença prolongada ou um fim que não correu como imaginava.
Em muitas situações, a perda não chega apenas com tristeza.
Chega acompanhada de dúvidas, de perguntas sem resposta e, por vezes, de uma imagem que insiste em voltar à mente.
Este texto fala desse lugar:
das decisões difíceis, da culpa que pode surgir depois
e da chamada “última imagem”.
A decisão de eutanásia: entre o cuidado e a dúvida
Em algumas situações clínicas, a eutanásia é proposta quando o sofrimento do animal é elevado,
e as possibilidades de recuperação são muito limitadas ou quase nulas.
Noutras, essa possibilidade existe, mas não chega a concretizar-se — por escolha, por dúvida, por circunstâncias externas ou porque o fim chega antes.
Em qualquer dos casos, o tutor é colocado numa posição emocionalmente exigente:
observar quem ama sofrer, e ter de ponderar uma possibilidade que ninguém gostaria de ter de enfrentar
É comum surgir ambivalência.
O desejo de aliviar o sofrimento do seu animal pode coexistir com sentimentos de falha, culpa,
impotência ou medo de estar a abreviar ou a prolongar um processo maior do que si.
Quando não existem decisões boas, mas apenas decisões possíveis, o sofrimento, por vezes, não termina nesse momento:
deixa de ser o sofrimento de ter de decidir e passa a ser o sofrimento de viver com essa decisão — seja ela qual for.
A culpa depois da decisão — ou da perda
Após a perda, muitos tutores ficam presos a pensamentos como:
“E se eu tivesse esperado mais um dia?”
“E se tivesse decidido de outra forma?”
“E se tudo isto pudesse ter sido evitado?”
A culpa não surge porque tenha havido um erro, mas porque o amor se manifesta, muitas vezes,
como um sentido de responsabilidade total.
No momento da decisão, a pessoa é colocada numa posição em que precisa de agir, estar presente e sustentar o agora —
como se tudo dependesse dela.
Depois da perda, quando o silêncio chega, essa responsabilidade não desaparece: transforma-se em perguntas.
Mesmo decisões — ou não decisões — tomadas com cuidado, informação e amor
não eliminam a dor da perda,
nem garantem tranquilidade emocional depois.
Muitas vezes, o que dói não é a culpa de ter feito algo errado,
mas a tristeza profunda de desejar que tudo tivesse sido diferente.
Quando a última imagem não sai da cabeça
Para algumas pessoas, a dor concentra-se numa imagem específica:
a injeção, a expressão do animal, o ambiente da clínica,
uma cena de urgência —
ou o momento do último fôlego.
Estas imagens podem regressar de forma repetida e intrusiva.
Isso não significa fragilidade, dramatização ou incapacidade de lidar com a perda.
No momento da perda, a mente está ocupada a sobreviver emocionalmente:
a decidir, a estar presente, a acompanhar e a sustentar o agora.
Nem sempre consegue integrar tudo o que acontece.
Quando a imagem regressa, a mente está apenas a tentar, mais tarde,
fazer aquilo que não conseguiu no momento: dar sentido ao que aconteceu,
e ligar esse fragmento à história de uma vida inteira
Pode ser uma imagem, um gesto, algo dito —
ou a despedida que não ocorreu como desejaríamos.
Nem todo o luto é trauma.
Mas alguns momentos da perda são vividos de forma tão intensa
que precisam de mais tempo — e, por vezes, de mais cuidado —
para serem integrados na narrativa completa da relação.
Integrar, não apagar
Integrar não é apagar a imagem, nem forçar memórias felizes.
É permitir que aquele momento deixe de ocupar todo o espaço
e passe a ser apenas uma parte de uma história maior.
Algumas pessoas sentem sobretudo culpa.
Outras sentem mais choque, incredulidade, raiva, ansiedade.
Há também quem fique mais “anestesiado”, como se não conseguisse sentir quase nada.
Todas estas formas de resposta são expressões possíveis do luto.
Com o tempo — e através do percurso que cada um faz para processar a sua perda, por vezes com apoio especializado — é possível que estas memórias deixem de ser o centro de tudo.
A dor não desaparece apenas porque os dias passam, mas porque aprendemos a dar-lhe um novo lugar, onde pode coexistir com o amor que permanece.
Se as dúvidas, a culpa ou as imagens se tornarem difíceis de gerir sozinho(a), o acompanhamento psicológico especializado em luto pode ajudar a encontrar esse caminho.
Referências para consulta
• Cooney, K. A. (2011). Euthanasia and Quality of Life.
• Morris, P. H., & Knight, S. (2013). The impact of companion animal euthanasia on the owner.
• Neimeyer, R. A. (2001). Meaning Reconstruction and the Experience of Loss.
• Rollin, B. E. (2006). An Introduction to Veterinary Medical Ethics: Theory and Cases.
• Tangney, J. P., & Dearing, R. (2002). Shame and Guilt.